TJ pagou 13º de indenização retroativa para juízes sem previsão legal em Sergipe

TJSE Gratificação Acervo de Juízes

 

No mês de dezembro, os contracheques de vários magistrados do Tribunal de Justiça de Sergipe (TJSE) superaram os R$ 200 mil. O valor inflado deveu-se à indenização da gratificação por acúmulo de acervo, que foi paga em dobro – uma espécie de “13º salário indenizatório” – e retroativa ao ano de 2015, apesar da ausência de previsão na legislação estadual sergipana.


Enquanto a Presidência do TJSE empurra direitos dos servidores para o mês de julho – ignorando a data-base legal de janeiro – o penduricalho retroativo dos juízes consumiu quase R$ 59 milhões no último ano. Esse montante seria suficiente para aumentar em mais R$ 1.600,00 o auxílio-saúde dos servidores efetivos, hoje marcado pela desigualdade.


A gratificação de acervo processual para juízes foi instituída em Sergipe pela Lei Complementar nº 327 no ano de 2019 e extinta em 2024, quando foi substituída pelo auxílio-folga ("licença compensatória” que criou folgas para juízes a cada três dias de trabalho e a venda destas folgas).


Um ano depois, em fevereiro de 2025, a gratificação de acervo foi ressuscitada na primeira sessão do Pleno da gestão da desembargadora Iolanda Guimarães, em votação relâmpago – que chamou a atenção da imprensa nacional – com um detalhe ainda mais grave: efeitos retroativos ao ano de 2015, época em que o benefício sequer existia no Estado de Sergipe. Desde então, trata-se de um mecanismo que levanta graves questionamentos sobre sua legalidade e prescrição.


Para recriar a gratificação de acervo extinta, através de uma decisão administrativa, a Presidência do TJSE transformou a verba remuneratória em indenizatória. E, por isso, não há incidência de Imposto de Renda nem contribuição previdenciária, e o montante não fica retido pelo teto constitucional – o que amplia, ainda mais, o prejuízo para os cofres públicos.


O TJSE usou como único fundamento a legislação federal – Leis 13.093/2015 e 13.095/2015 – que instituiu o benefício para juízes federais e do trabalho, mas nada dispõem acerca de juízes estaduais, nem poderiam.


A trajetória do pagamento ao longo do último ano evidencia uma escalada. A indenização começou a ser paga em parcelas de R$ 10 mil, por mês para cada juiz contemplado. No mês seguinte, o valor dobrou para R$ 20 mil e, em seguida, sofreu novo salto, chegando a R$ 45 mil. Em maio e junho, houve um recuo. Mas a trégua, no entanto, foi breve, a partir daí, as parcelas passaram a R$ 40 mil e entraram novamente em trajetória de alta, atingindo R$ 46 mil em novembro.


Em dezembro, o TJSE foi além, autorizou o pagamento de duas parcelas da indenização de R$ 46 mil, somando R$ 92 mil para muitos juízes – como um “13º salário” da gratificação por acúmulo de acervo, que está sendo paga na modalidade “indenizatória”. Apenas alguns magistrados, todos aposentados, não receberam a segunda parcela do penduricalho no mesmo mês.

 

Só ouve um lado

Esse cenário reforça a política salarial marcada por distorções ainda muito longe de serem conciliadas no TJSE. Enquanto a Presidência do Tribunal não avança em demandas prioritárias da pauta de servidores, os números da própria gestão contam outra história. O orçamento do TJSE para 2026 cresceu quase 14% em relação ao ano anterior, ultrapassando a marca de R$ 1 bilhão. Apesar dessa margem, a gestão destina recursos, cada vez maiores, para o pagamento de penduricalhos no topo da pirâmide salarial.


Por outro lado, propõe um reajuste irrisório de 6% no auxílio-saúde dos trabalhadores. De acordo com a Resolução 294 do Conselho Nacional de Justiça (CNJ), os servidores têm direito a receber o auxilio no valor de R$ 3.587,72, além do acréscimo de 50% para aqueles que têm mais de 50 anos de idade ou portadores de doença grave e PCDs.


Em outras palavras, para penduricalhos que multiplicam a remunerações de magistrados sem fim, a gestão sempre escuta e encontra recursos com celeridade. Mas para o cumprimento de direitos dos servidores e servidoras que garantem o funcionamento cotidiano da Justiça, os ouvidos da gestão continuam fechados.

 

 

 

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