'Estadão' denuncia penduricalho de até R$ 13 mil pago a juízes de Sergipe como 'auxílio-folga'

 

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Na última segunda-feira, 22 de setembro, o blog do Fausto Macedo, que cobre o mundo do Direito no jornal O Estado de São Paulo, repercutiu denúncia do Sindijus a respeito da farra do auxílio-folga no Judiciário de Sergipe. A publicação é mais uma dentre as várias matérias de veículos da imprensa nacional que expõem o 'olho grande' da Justiça sergipana e reforça a necessidade de o debate sobre supersalários ganhar tração no Tribunal de Justiça de Sergipe. 

Você pode conferir a íntegra ao final da reportagem (o texto também está no portal do Estadão, disponível para assinantes). 

O penduricalho em questão é a licença compensatória, criada pela Resolução nº 10/2024 do TJSE. Com isso, a cada três dias de trabalho extra, o juiz teria direito a um dia de folga, limitado a dez dias por mês. Caso não usufrua, o magistrado recebe uma indenização em dinheiro, que corresponde a um terço do seu subsídio (entre R$ 11,3 mil para juízes substitutos e R$ 13,2 mil para desembargadores).

Na prática, o auxílio substituiu a antiga gratificação por acúmulo de acervo, que tinha natureza remuneratória e estava sujeita ao teto constitucional. A “licença compensatória”, ao contrário, é tratada como verba indenizatória — o que significa que não entra no cálculo do teto, não sofre desconto previdenciário e nem incide no Imposto de Renda.

 

Leia o texto completo: 

 

Tribunal de Sergipe paga até R$ 13 mil de adicional por ‘excesso de trabalho’ a todos os seus juízes

Corte afirma que pagamentos estão de acordo com legislação vigente e com orientações do CNJ, que considerou penduricalho regular

Por Rayssa Motta e Fausto Macedo

 

O Tribunal de Justiça de Sergipe (TJ-SE) vem pagando mensalmente a todos os seus juízes e desembargadores um valor unificado a título de licença compensatória por “excesso de trabalho”.

Questionado pelo Estadão, o tribunal sustentou que os pagamentos estão de acordo com a legislação vigente e com as orientações do Conselho Nacional de Justiça (CNJ), órgão que fiscaliza o Poder Judiciário.

Veja quanto cada magistrado recebe por “excesso de trabalho”:

Juiz Substituto: R$ 11.959,09
Juiz de Direito de Entrância Inicial: R$ 12.588,51
Juiz de Direito de Entrância Final: R$ 13.251,07
Desembargador: R$ 13.948,49


O Tribunal de Sergipe tem 142 juízes e 14 de desembargadores em atividade - a 15ª cadeira está vaga.

A licença compensatória permite aos juízes pedir folgas ou receber um adicional em dinheiro pelo acúmulo de funções administrativas e processuais consideradas extraordinárias. O pagamento não entra no cálculo do teto remuneratório.

Em Sergipe, a licença foi regulamentada em uma resolução do desembargador Ricardo Múcio, então presidente Tribunal de Justiça do Estado, em março de 2024.

Segundo o ato administrativo, o benefício é autorizado em cinco situações: cumulação de acervo de processos e procedimentos; exercício cumulativo de jurisdição; cumulação de atividades administrativas e finalísticas extraordinárias; exercício de função “relevante singular”, ainda que em regime de exclusividade; e “situações excepcionais de atuação do magistrado que configurem caso fortuito ou força maior”.

A resolução também prevê que recessos, feriados e pontos facultativos sejam computados como “de efetivo exercício”, ou seja, os períodos de descanso são considerados como dias de trabalho no momento de pagar a licença.

Como resultado, o adicional foi pago até mesmo em dezembro, mês em que o Judiciário funciona em regime de plantão, apenas para casos urgentes.

Segundo a resolução, a licença compensatória “será automaticamente indenizada por prazo indeterminado, na proporção de 1/30 (um trinta avos) do subsídio por dia de licença”.

O Sindicato dos Servidores Públicos do Estado de Sergipe denunciou o caso ao CNJ. A entidade afirma que o Tribunal de Justiça não verifica a situação de cada magistrado ao conceder a licença, ou seja, o pagamento não seria personalizado. Os servidores afirmam que o penduricalho é depositado no valor máximo “sem qualquer apuração prévia e individualizada do preenchimento dos requisitos autorizadores”. Segundo os cálculos do sindicato, o custo anual das licenças será de R$ 23 milhões.

O Tribunal de Sergipe nega que o pagamento seja automático e afirma que o benefício é apurado considerando o acervo do ano anterior. Segundo a Corte, no ano de 2024 todos os magistrados estavam aptos ao recebimento da gratificação. Em 2025, apenas a 17.ª Vara não foi considerada apta para receber o adicional.

Por unanimidade, o Conselho Nacional de Justiça considerou os pagamentos regulares. A decisão foi tomada no plenário virtual, em sessão concluída no dia 12 de setembro.

A Comissão Permanente de Eficiência Operacional, Infraestrutura e Gestão de Pessoas do CNJ concluiu que as normas definidas pelo Tribunal de Sergipe para a concessão da licença compensatória encontram respaldo na autonomia administrativa e financeira dos tribunais.

O conselheiro Pablo Coutinho Barreto, relator do caso, argumentou em seu voto que a resolução “não inovou no ordenamento jurídico, limitando-se a estender aos membros da magistratura os mesmos direitos assegurados aos membros do Ministério Público Estadual”.

A licença compensatória foi criada por iniciativa do Conselho Nacional do Ministério Público, órgão de administração e fiscalização do MP, em maio de 2022, na gestão do ex-procurador-geral da República Augusto Aras.

O benefício tem sido estendido ao Judiciário com base em duas resoluções do Conselho Nacional de Justiça, de 2011 e de 2023, que estabelecem a simetria entre as carreiras da magistratura e do Ministério Público.

Essas resoluções equiparam magistrados, procuradores e promotores e preveem “reciprocidade” em direitos e deveres. As regras vêm sendo aplicadas administrativamente pelos tribunais como uma estratégia para cruzar benefícios e vantagens salariais entre as carreiras.

Segundo Pablo Coutinho Barreto, o CNJ “se orientou no sentido de que, à luz da ordem constitucional, os membros da magistratura não podem ter situação desfavorável em relação ao Ministério Público, razão pela qual deve ser garantida a simetria entre a estrutura remuneratória dos membros do Ministério Público e os membros do Poder Judiciário, inclusive no que se refere ao tratamento conferido à licença compensatória”.

 

 

 

 

 

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