
A influência crescente das 'big techs' sobre o debate público, a ascensão das 'fake news' e os avanços da inteligência artificial estão transformando a comunicação em uma disputa estratégica de poder. A avaliação foi feita pelo publicitário e estrategista político Henrique Pereira, do Rio Grande do Sul, durante palestra realizada na sede do Sindicato dos Trabalhadores do Poder Judiciário de Sergipe (Sindijus), em Aracaju, na sexta-feira, dia 29/05.
O evento marcou o lançamento do livro Teia Popular – Soberania Digital para vencer esta guerra, em Sergipe. E reuniu dirigentes sindicais e comunicadores para debater os desafios da comunicação popular em um ambiente cada vez mais dominado por plataformas privadas.
Ao longo da exposição, Pereira argumentou que a disputa contemporânea já não ocorre apenas no campo das ideias ou da informação, mas também no controle das infraestruturas digitais que organizam o fluxo de dados, conteúdos e relações sociais.
“Sem soberania digital, não existe soberania nacional. Esse é o debate central que precisamos fazer em todos os espaços que defendem a democracia”, afirmou. “Não é uma guerra racional nem informacional. É uma guerra psicológica. Se a gente não entender que isso está acontecendo e não criar instrumentos para enfrentar essa realidade, não teremos como resistir mantendo a democracia”.
Um dos principais pontos defendidos pelo publicitário foi a necessidade de sindicatos, associações e movimentos populares reduzirem sua dependência das redes sociais comerciais. A avaliação de Pereira é que grande parte das organizações passou a concentrar sua comunicação em plataformas cujas regras são definidas por empresas privadas, tornando-se reféns de algoritmos que controlam alcance e visibilidade.
“Eu não posso continuar obedecendo ao algoritmo se quero gerar consciência de classe. As redes podem ser ferramentas importantes, mas não podem ser a nossa morada. Precisamos trazer as pessoas para espaços onde a relação com a base seja verificável e permanente”, argumentou.
Alguns dos caminhos sugeridos envolve a construção de bancos próprios de contatos, a substituição da comunicação unilateral pelo diálogo permanente com as bases e o fortalecimento de redes de relacionamento fora das plataformas tradicionais. “O movimento sindical sempre teve força porque estava próximo das pessoas. O jornal ou o panfleto eram instrumentos para iniciar uma conversa. Hoje, muitas organizações publicam conteúdos como se estivessem fazendo um monólogo”, completou.
Comunicação dos trabalhadores
Além do debate sobre tecnologia e democracia, a atividade abriu espaço para reflexões sobre os impactos desse cenário na organização dos trabalhadores.
Entre os participantes estava a vereadora de Aracaju professora Sônia Meire (PSOL), que ressaltou a importância de discutir comunicação e soberania digital a partir da perspectiva da classe trabalhadora.
Segundo a parlamentar, o avanço das plataformas digitais e a concentração do poder tecnológico nas mãos de poucas empresas exigem que sindicatos e movimentos populares construam alternativas próprias de comunicação. “Não podemos ficar reféns desses processos. A classe trabalhadora precisa criar suas próprias condições e sua própria infraestrutura de comunicação. Não se trata de abandonar as redes sociais, mas de utilizá-las para transformar a realidade e fortalecer a organização popular”, afirmou.
Ao comentar a palestra, o coordenador geral do Sindijus que encerrava o seu mandato, Jones Ribeiro, avaliou que o debate oferece caminhos concretos para que o movimento sindical enfrente os desafios impostos pelas novas tecnologias e pela crescente concentração do poder comunicacional. Para o dirigente, a discussão ganha ainda mais relevância diante do avanço das tecnologias de vigilância e da capacidade das plataformas digitais de monitorar hábitos, comportamentos e interesses dos usuários.
“Os sindicatos têm experiência em apontar problemas, mas também precisam construir caminhos. Hoje recebemos anúncios de produtos depois de comentar sobre eles em uma conversa. Isso mostra o nível de monitoramento que existe. Entender esse fenômeno é fundamental para quem atua na organização coletiva dos trabalhadores”, observou.
Também presente no evento, o presidente do Sindifisco Sergipe, José Antônio dos Santos, chamou atenção para as dificuldades enfrentadas pelas entidades sindicais para dialogar com trabalhadores em um ambiente marcado pela desinformação e pela fragmentação do debate público.
Segundo ele, um dos principais desafios atuais é disputar consciências sem aprofundar divisões já existentes entre os próprios trabalhadores. “Precisamos refletir sobre como dialogar com pessoas que muitas vezes chegam aos sindicatos influenciadas por informações falsas ou por discursos que enfraquecem a ação coletiva. Essa é uma preocupação que atinge todo o movimento sindical”, afirmou.
O novo coordenador geral do Sindijus recém-eleito, Plínio Pugliesi, agradeceu a presença do publicitário e o lançamento do livro na sede do sindicato.
"Henrique é um parceiro de longa data do Sindijus e de diversos sindicatos sergipanos. Há mais de dez anos, a sua empresa, Interlig Propaganda, produz as campanhas vitoriosas dos servidores do Tribunal de Justiça, que, nesse período, se tornaram referência em criatividade e em comunicação sindical. Além do Sindijus, Henrique acumula na bagagem campanhas produzidas para outras categorias irmãs aqui em Sergipe, como os professores municipais no Sindipema, os policiais civis no Sinpol e os servidores municipais na Fetam. Vamos aproveitar a sua passagem por aqui para conversar sobre as campanhas futuras do Sindijus!," disse Plínio.