
O Brasil registrou 536 greves no primeiro semestre de 2025, um aumento de 16% em relação ao mesmo período do ano anterior, quando foram contabilizadas 462 paralisações. Os dados constam no Balanço das Greves do Primeiro Semestre de 2025, divulgado pelo Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos (Dieese), com base no Sistema de Acompanhamento de Greves (SAG), que reúne informações desde 1978.
Segundo o levantamento, as greves na esfera privada voltaram a predominar, respondendo por 282 mobilizações (53%), enquanto o funcionalismo público concentrou 219 paralisações (41%) e as empresas estatais, 34 (6%). No total, as greves resultaram em 17.877 horas paradas em todo o país. Apesar de numericamente inferiores, as paralisações no setor público foram responsáveis pela maior fatia das horas paradas: 56%, contra 40% na esfera privada.
O crescimento mais expressivo ocorreu nas empresas estatais, onde o número de greves saltou de 19 para 34, alta de 79%. Já na iniciativa privada, o avanço foi de 47%, enquanto no funcionalismo público houve queda de 13% no número de mobilizações, na comparação anual.
Educação e municípios concentram greves no setor público
No funcionalismo público, 70% das greves ocorreram na esfera municipal, e quase metade (49%) foi deflagrada por profissionais da educação. A pauta predominante envolveu reajuste salarial, presente em 63% das mobilizações, seguida por reivindicações por melhores condições de trabalho, maior investimento nos serviços públicos e protestos contra governantes. A maioria dessas paralisações teve caráter de advertência (62%) e foi organizada no âmbito de categorias profissionais, não de unidades isoladas da administração pública.
Salários atrasados impulsionam greves no setor privado
Na esfera privada, o Dieese aponta um perfil distinto. Dois terços das greves ocorreram no setor de serviços, com destaque para transportes urbanos e turismo e hospitalidade, áreas marcadas por terceirização e alta rotatividade. Diferentemente do setor público, a principal reivindicação foi o pagamento de salários em atraso, presente em 41% das greves, seguida por demandas relacionadas à alimentação e às condições de trabalho.
Outro dado relevante é que 71% das greves privadas ocorreram por tempo indeterminado, indicando maior grau de conflito e dificuldade de negociação. Além disso, 90% das mobilizações foram organizadas no âmbito de empresas específicas, e não por categorias inteiras.
Predomínio de greves defensivas
O boletim mostra que o movimento grevista no país segue majoritariamente defensivo. Itens relacionados à manutenção de direitos já existentes ou à denúncia de descumprimentos legais estiveram presentes em 82% das greves analisadas. Ainda assim, quase metade das mobilizações também apresentou reivindicações propositivas, como ampliação de direitos ou conquistas salariais.
Para o Dieese, os dados reforçam uma tendência observada desde 2016: a greve tem sido o recurso extremo de trabalhadores submetidos à precarização, sobretudo em setores como educação, saúde, serviços terceirizados e transporte urbano. Mesmo quando a pauta envolve reajuste salarial, o estudo avalia que a reivindicação está mais associada à recomposição de perdas inflacionárias acumuladas do que à busca por ganhos reais.
O balanço indica, assim, que o aumento das greves em 2025 não representa um ciclo de expansão ofensiva do movimento sindical, mas a persistência de conflitos relacionados à deterioração das condições de trabalho e ao descumprimento de direitos básicos no mercado de trabalho brasileiro.
Fonte: Dieese